Notícia Completa
20:26 - 13/11/2010
Diário de São Paulo
Com que placa eu vou?
Letras e números das placas dos carros podem esconder crenças, superstições e até a vontade de simplesmente brincar
Para muita gente, a necessidade de colocar placa em um carro zero quilômetro é apenas isso: uma obrigação a ser cumprida por quem quer trafegar tranquilo pelas ruas das cidades. Se a pessoa for moradora de São Paulo ou visitante costumeira, ela pode, no máximo, pensar em placas cujo final numérico deixem seu veículo fora desse ou daquele dia de rodízio. A verdade é que a placa pode significar bem mais que a identificação do automóvel. A sequência de letras e números pode esconder superstições, crenças religiosas ou a simples necessidade do proprietário de diferenciar-se. Em algumas placas - e todo mundo já viu uma dessas um dia - basta bater o olho para saber: foi escolhida a dedo. Usando as combinações possíveis de letras e números, encontra-se de tudo: há quem já tenha escolhido, por exemplo, as letras DOG (a palavra cachorro, em inglês) para identificar a profissão a que se dedica (veterinário), as placas com a combinação GAY e GLS; as BEE e BMW (estas últimas escolhidas para combinar com um New Beetle ou BMW), as mulheres chamadas LIA que se auto homenageiam com as três letras do nome ou as Beatrizes, que optam pelo óbvio BIA. Pessoas ligadas à comunidade judaica costumam usar muito os números 18 e 55. A explicação é que o alfabeto hebraico é alfanumérico e a cada letra corresponde um número. O número 18 é o número correspondente à letra chai (pronuncia-se rai), que tem como significado a palavra vida. "Quem escolhe o 18 está fazendo uma escolha pela vida", observa o diretor institucional da Federação Israelita de São Paulo, Alberto Milkewitz, Ele diz também que o 5 é outro número de escolha tipicamente judaica porque a ele corresponde a hamsa, um amuleto (uma mão com um olho dentro) típico nos países árabes, usado contra mau-olhado. Além das crenças e superstições, o universo das placas de automóveis esconde regras. Cada estado do país, por exemplo, só pode ter placas dentro de um espectro de combinações definidas pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Elas foram definidas para cada estado à medida em que o atual sistema foi implantado (o anterior tinha apenas duas letras). O Paraná, primeiro a recebê-lo, tem placas de AAA a BEZ. Na sequência vem São Paulo, com o espectro de BFA a GKI. E assim por diante. Aos diferentes tipos de carros (uso governamental, diplomático, particular, etc) correspondem diferentes cores de placas. Os particulares, por exemplo, usam placas de fundo cinza com caracteres em preto. Já os oficiais, placas de fundo branco com caracteres pretos e os de missão diplomática, fundo azul com caracteres brancos. Escolha é possível e gratuita desde que não haja igual Escolher a combinação de letras e números das placas dos carros é direito de todo e qualquer cidadão. Desde, é claro, que a combinação esteja disponível. E o melhor é que a escolha pode ser feita sem que a pessoa precise desembolsar um único tostão, conforme informações obtidas no Detran-SP. Para ter a placa personalizada dos seus sonhos, o cidadão precisa apenas dirigir-se ao setor de classificação no Detran, no momento em que for registrar seu veículo zero quilômetro. Lá, ele irá verificar a disponibilidade da combinação desejada. De acordo com funcionários do Detran, uma consulta rápida indica se a placa já existe. Se a pesquisa ficar mais demorada, há a possibilidade da pessoa voltar no dia seguinte. Para não ter esse trabalho, há quem opte por pagar os serviços de um despachante. A corretora de imóveis Celia Hamermesz é um exemplo. Ela e o marido pagaram a um desses profissionais para conseguir as combinações desejadas. "Achamos melhor pagar ao despachante para não ter dor de cabeça e nem o trabalho de procurar", resume. Célia pertence à comunidade judaica. Crente na aura dos números 18 e 5, ela não deixou barato e usou logo ambos nas placas de seus automóveis. Os três carros da família têm placas com esses números ou com outros que, somados, resultam em 18: 5518, 1855 e 5544. "Não sei dizer se eles dão sorte, mas azar eles não dão", diz. A arquiteta Michele Bibas sempre teve carros com placas de final 18. De origem judaica e adepta da numerologia, ela também costuma investir no 9, principalmente quando usado duas vezes, como na placa atual de seu automóvel, 9189. "O nove é um número mágico em um milhão de formas e o dezoito é chai, vida", explica. Além dos números, ela também optou por diferenciar-se ao escolher as letras da placa: FUN, ou seja, a palavra "diversão" em inglês. Placas surgiram com veículos motorizados O primeiro sistema de emplacamento brasileiro data de 1901, quando começaram a trafegar veículos motorizados no país. Durou até 1941. Na época, cada cidade cuidava das suas placas, que eram pretas com letras brancas e traziam, obrigatoriamente, as letras P, de particular, ou A, de aluguel, acompanhadas de números que podiam ir de 1 a 5 dígitos. 38.052 veículos foram emplacados em São Paulo em setembro Em cada época,uma combinação De 1941 a 1969, as combinações numéricas passaram a ser agrupadas duas a duas. Entre 1969 e 1990, cada estado possuía uma sequência e ela podia repetir-se nos demais. 18 no alfabeto hebraico significa chai (rai), que significa vida Número 0000 não pode ser utilizado O acréscimo de mais uma letra nas placas a partir de 1990 (em alguns estados até em 1999) possibilitou a criação de um cadastro nacional unificado de veículos. A quantidade máxima de combinações passou a ser de 175.742.424. O número 0000 não é usado. 5 é o número do hamsa, amuleto árabe contra mau-olhado 55 é o hamsa-hamsa, ou seja, o efeito do amuleto duplicado
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