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06:10 - 23/01/2010
Correio do Povo (RS) - Impresso
Indústria da multa
Eu sou a favor da indústria da multa. Faz bem para a sociedade multar os infratores. Melhora a arrecadação dos municípios e ajuda a conter a fúria selvagem dos motoristas. Sou a favor também da existência de metas para os agentes de trânsito. Quem multa mais, sem cometer infrações, deve ser recompensado. Isso evita que o fiscal se torne leniente ou preguiçoso. Multar é ótimo. O trânsito mata mais por ano do que qualquer guerra. O estrago dos motoristas supera a maioria das catástrofes naturais. Só a multa educa. O resto é conversa fiada. Tem muita gente que não quer nem ouvir falar em educação para criminosos. Defende que as penas devem ser punitivas e ponto. O mesmo deve valer para o trânsito. Só a punição pelo bolso surte efeito. Tudo mais é pura enrolação. O "azulzinho" não pode e não deve inventar infrações. Se fizer isso, deve ser punido, de preferência com a exoneração. Mas não deve dar mole para ninguém. Falou no celular enquanto dirige, multa. Estacionou em lugar proibido, multa. Quanto mais, melhor. Tem motorista pior do que bandido. Se não tem ninguém olhando, está feito, ele passa o sinal fechado. A ocasião faz o infrator no trânsito. E toda ocasião é boa. Quase todo dia eu pego um táxi e ouço o motorista se queixar: - Assim não dá, me lascaram outra multa. - O senhor cometeu a infração? - Não... Bem... Sim, mas o cara podia ter aliviado. Todos querem ser "aliviados". Multa falsa é crime. Fechar os olhos para infrações reais é ato criminoso. Não tem essa de dar um primeiro aviso. Aí não tem multa. O sujeito avisado vai cometer a mesma infração em outro lugar ou noutro dia confiando que será advertido antes de receber a punição. Essa história de aviso prévio é embromação de infrator para não ser multado e poder continuar cometendo infrações numa boa. Multa neles. Sem dó nem piedade. Eu assisto a uma dúzia de infrações de trânsito por dia. Existe um lobby dos infratores para desmoralizar quem multa. É jogada ensaiada. Coisa de quem tem acesso à mídia para defender sua liberdade de atropelar os outros ou de andar na contramão da vida. É típico das classes médias e abastadas querer levar vantagem em tudo, sem punição. Já é muita barbada ser avisado de onde tem pardal. E não ser obrigado a fazer o teste do bafômetro. Nas grandes cidades, atualmente, dois perigos rondam as pessoas: bandidos e motoristas. Os infratores matam mais. Infrator de trânsito é refratário a campanhas educativas. Prova de que o poder da mídia é limitado. A televisão repete incansavelmente: se for dirigir, não beba. Uma visitinha rápida aos bares de uma cidade como Porto Alegre revela o fracasso pedagógico midiático. É beber e dirigir. McLuhan estava certo: o meio é a mensagem. No caso, o meio social. Beba, dirija, cometa infrações e se dê bem. Exceto se houver um poste na frente. Ou o trouxa de um pedestre distraído. Papo de bêbado é muito chato. Papo de infrator de trânsito é mais chato ainda: a culpa é sempre do "azulzinho". Viva a multa!
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